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O que nós, blogueiros, somos? 21 janeiro, 2009

Posted by Fabio Malini in Blogs, campusblog, campusparty, cibercultura.
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palestra no Campus Party Brasil

21 de janeiro de 2009

“O devir é sempre de ordem outra que a da filiação. Ele é da ordem da aliança”. (Gilles Deleuze)

quem diga que se há só existe uma única identidade entre blogueiros: a própria internet (este seria o ser positivo dos bloggers). Contudo, em geral,  esse tipo de informação tem um certo sentido pejorativo, pois que se revela uma operação antropológica negativa, já que acusa todo tipo de blogueiro de “falta de tradição ética” (este seria o ser negativo dos bloggers).

Usando muitas remissões de leituras associadas ao ciclo do debate sobre o capitalismo cognitivo, que peço desculpas, por não referenciá-las, pois aqui se trata de texto síntese, um texto para ser lido.

De antemão eu queria demonstrar que estamos no cerne de um conflito de poder. Na verdade, num conflito entre poder e saber. Esse conflito está associado à nossa indignação, a nossa insurreição sobre por que nós somos excluídos do coletivo que conhece ou do coletivo que deve produzir o conhecimento. O poder, no âmbito do saber, sempre se estruturou no isolamento da sociedade ao trabalho do laboratório, do trabalho que produz a experiência. A experiência é que funda a certeza.  Portanto, isso fez separar o saber do comum. Com isso o argumento de o saber devendo ser produto do espaço público, do espaço comum, sempre foi refutado, porque isso causaria a desordem, o caos, geraria somente incertezas. Então o monopólio do saber fica restrito aos representantes. Os acordos do saber ocorrem entre poucos. Isso é a base da democracia representativa. Um tempo as pessoas são ouvidas, depois se calam, porque transferem suas vozes para seus representantes. A lógica de um fala, outro se cala, é o que fundamento o poder no campo dos saber. É assim que se faz ciência, é assim que faz jornalismo, por exemplo.

Os blogs fazem parte de uma movimento social que recusa essa hierarquização. Recusa como o poder funciona. De deixar para a mídia dizer quem é jornalista ou não é. Quem informa e quem não informa. O poder funciona nessa separação. Não se trata de desqualificar saberes dos especialistas e eruditos, é muito mais questionar a sua clausura, o seu isolamento. É questionar essa divisão. Essa é a nossa visão, esse é o nosso desejo, essa é a nossa vida. Hoje o conhecimento não é mais estável. As corporações do poder também estão numa incerteza radical. Veja o caso caso do jornalista. O capitalismo cultural está sendo marcado por essa incerteza. Muitos saberes estão saindo de espaços públicos rompendo a sua insígna de saber profano.

Foucault dizia que é uma insurreição do saber submisso, é  o que vivemos. É um movimento duplo. Uma insurreição do saber particular, do saber naif, do saber ingênuo. Saberes que são particulares e específicos. O louco quer demonstrar o seu saber, o operário, o morador de rua,o presidiário, o adolescente, o paciente, idem. E, por outro lado, há também uma insurreição do saberes eruditos: das tradições, dos conceitos, das teorias que haviam sido vencidas. O caso do debate teórico sobre os commons e a liberdade é um exemplo disso, porque era uma reflexão que havia sido completamente abandonada e derrotada na universidade, e que agora é retomada com muita força.

Então somos parte, como blogueiros, dessa nova luta contra o poder. Contra o direito do poder em auto-proclamar quem é o especialista, que é aquele que tem experiência e quem tem o direito de fazer a experiência. Como disse explicitamente o filósofo italiano Maurizio Lazzarato, “o poder de crítica cabe a cada um de nós, e não apenas aos ‘especialistas’. Nós somos especialistas”.

Eu queria corroborar e refutar essas duas dimensões identitárias (o positivo e o negativo) a partir de algumas leituras teóricas e observações da produção blogueira. Então a partir dessa tensão entre o positivo e o negativo extrairia os fundamentos que todo blogueiro levam em consideração para formar a sua reputação (ou melhor, os seus padrões de conduta). Tudo isso de forma muito ensaística e, até certo ponto, com uma levada filosófica para fazer jus a minha atividade profissional de professor universitário.

I. Todo blog reproduz a cultura da internet.

Todos nós sabemos: ao emergir em 1997, o blog hospedava as linguagens mais amadurecidas da internet. E mais: se tornava o mais novo povoamento da internet. Muitos usuários começaram a ter uma nova moradia na web para além de seus email (primeiro povoamento) e das suas comunidades virtuais (segundo povoamento). O interessante é que o blog vai ser a primeira plataforma madura de publicação que nasce na internet, não guardando nenhuma (eu sou radical nisso), mas nenhuma mesmo, referência a qualquer forma de publicação que o antecedeu. Não tinha, a priori, a necessidade de de transpor nenhum meio físico de informação, tal como se caracterizou o jornalismo online.

A primeira conclusão óbvia é que todo blog é, de forma condicional, uma prática cibercultural. Eu tenho uma experiência de ser professor de jornalismo digital que coloco meus alunos para publicarem blogs, apesar da reação deles, que querem produzir notícias. E noto que a grande dificuldade deles em produzir blog é a adaptação à netculture e o abandono dos princípios éticos de massificação. (Vocês sabem o jornalismo advém da cultura do papel: a durabilidade, a objetividade, a portabilidade, a opinião pública, a massificação, mas também o descarte, a efemeridade, a exclusividade e, principalmente, o passado. O Mcluhan dizia que o papel – na verdade, o livro – inventou o público e o individualismo. Então, meus alunos querem falar com o grande público, isolado e passivo. E a internet é uma ruptura com a massificação. Nunca na internet haverá uma publicação com a mesma audiência da televisão, por exemplo). Mas percebo que abandonar os princípios de massificação não é um grande obstáculo, mas sim compreender e exercitar os fundamentos da netculture, que é uma memória pesada que está cimentada sobre os ombros de cada blogueiro.

Que fundamentos são esses? Inúmeros, mas quero destacar apenas três,  aqueles que estão mais arraigados até hoje na constiuição do ser blogueiro (isso com ajuda ajuda de um especialista nesses fundamentos, o russo Lev Manovich):

  1. Na rede, “nos identificamos com a estrutura mental de outra pessoa”. Não seguimos o corpo de uma celebridade, como ocorre na sociedade industrial de massa. A internet é um dispositivo de relação entre mentes: é um bio-organismo vivo.
  2. Na rede, “todos os meios são programáveis”. Os dados são contínuos, portanto, submetidos sempre a uma adaptação individual ao invés da estandartização massificada.
  3. “Toda cultura digital é marcada pelo princípio da variabilidade”. Cada um seleciona entre uma diversidade de dados a ideologia quer carregar, tornando o original apenas protótipo daquilo que quer recombinar. Todos blogs são meios variáveis, porque servem como versões e protótipos ao mesmo tempo.

No sentido bem amplo, podemos reconhecer três características dos blogueiros que são derivadas dessa cultura da rede:

  1. Da relação entre mentes, advém entre os blogueiros o princípio da interligação. A ligação é que distingue o blog de qualquer outra publicação. Blogar é se aliar, se associar, se linkar (blogueiro linka blogueiro, se diz). É uma relação contínua com o outro. Aqui reside a cultura do hiperlink (filtro e contexto), a cultura dos memes (influência e partilha), a cultura da conversação (participação e referências múltiplas). A interface dos blogs é preparada para a interligação. Isso é o núcleo genealógico (portanto a raiz) da atividade blogueira.
  2. Da cultura da programação dos meios digitais, advém entre os blogueiros o princípio da perspectiva individual. O blog é um espaço protegido. Ninguém revisa o que você escreve. Portanto, não há checagem de ninguém, você não tem de responder perante a ninguém. É uma experiência, deste modo, de alargamento da compreensão pública da vida. E, em geral, essa compreensão se distinguem das versões do poder. É por isso que detestamos blogs que se detêm apenas a reproduzir conteúdos já padronizados, logo, conteúdos que reproduzem o poder. Isso porque, na raiz da estandartização, existe a busca pela fixação da compreensão a um único relato, a um único texto.
  3. Da cultura da variabilidade, advém entre os blogueiros do princípio da mistura.  Eu queria reforçar esse princípio porque tem muita relação com a questão biológica. O Richard Dawkins que afirmava que ao se tornar múltiplo, hibridizado, sabemos que o corpo fica mais forte, mais resistente. E há a perda natural do original. É a diferença o que une os blogueiros. Nesse sentido, eu sou do grupo que considero o blog algo absolutamente inclassificável. E acredito que ele é um gênero literário. Blogar é uma experiência que, paradoxalmente, estimula dois movimentos: puxar e empurrar, graças ao fato de cada post possa se dividir em comentários e hiperlinks que conduzem o leitor para um outro lugar com as mesmas característica de divisibilidade.

II. A moral blogueira e a questão da reputação

Eu dizia que concordo com a tese de que a unidade do blogueira reside no fato de ser o blog resultante da cultura da internet. Mas que era contra a visão de que a blogosfera não contém uma ética. Essa é uma crítica pesada. Não sei se vocês sabem a dimensão que isso causa quando alguém diz a um outro que não possui uma ética. O filósofo francês Michel Foucault gostava de ressaltar que nos tornamos sujeito – portanto, ativos no mundo – quando adquirimos uma ética; quando somos preenchidos de valores que fazem afirmar nossa singularidade, nossa diferença, nossa pulsão, nosso desejo de vida, nossa “vontade de poder” para citar o Nietzsche. Então quando dizemos que o blogueiro não é um “sujeito ético” significa uma acusação, significa que ele não é capaz de agir sobre o mundo, não é capaz de transformar a si. A ética é esse carregamento de valores que constituímos para nós como algo que nos difere e que nos movimenta. E que nos faz conhecer a si e aos outros.

Mas, num lugar como a da blogosfera, onde há uma fragmentação absurda do saber, onde se fala muito e se ouve pouco, onde parecemos nos sentir mais isolados do que em comunhão, será que é possível dizer que formamos um corpo ou seríamos apenas uma simulacro de nós mesmos? Somos um movimento social ou somos apenas imagens oportunistas e exibicionistas? Somos permeados de vontade de poder ou somos portfólios prêt-a-porter? Mais uma mercadoriazinha com seus valores de uso e troca ou um trabalho que nega ser comandado? Eu sei que essas questões ainda não estão bem resolvidas. Contudo, eu queria colocar isso bem num âmbito político para enfrentar essas questões espinhosas para chegar ao coração das práticas de reputação na blogosfera. É preciso, como fizeram os gregos, criar o Outro, criar aquilo que não é como uma estratégia antropológica para se dizer o que é. Trocando em miúdos: nós, blogueiros, quem somos e o que não somos? Eu estudo, do ponto de vista do materialismo, então parto da premissa que “somos o que construímos” numa relação de força contra força.

Então eu queria responder esse dilema ético do “ser ou não ser” a partir da análise de como se constrói o blogueiro para depois extrair daí as estratégias de julgo associadas esse mundo, que estão presentes na práxis blogueira. Vocês sabem, reputatus, significa renome que vêm da capacidade de julgo, de diferimento, de consideração. É uma avaliação que nos escapa: é uma atitude amorosa, à medida que se depende do outro. Mas dependendo do que se seja, de como nos definimos eticamente, a capacidade de distinção também é uma ou outra.

Para mim, nós, blogueiros somos tipos de pessoas motivados pela “partilha da informação, pela construção de uma reputação e pela expressão livre da opinião pessoal”. E o que nos funda é a ligação, é a relação com o outro, é o link, a referência. Blogueiro linka blogueiro, eis a nossa fundação ética no campo da informação. Diz a Rebecca Blood, “é a ligação que confere credibilidade aos weblogues, cria uma transparência impossível de atingir noutro meio de comunicação. É a ligação que cria a comunidade em que o weblogue se enquadra. É a ligação que distingue o blog da escrita dos meios tradicionais”.  Partilhar informação (links) ornando-a com sua expressão é o que vai torná-lo respeitado. Mas, sem sombra de dúvida, é “a produção de um ponto de vista, a capacidade de seleção de links e a experiência de vida do autor” que vão demarcar a sua reputação no seio dessa tribo. A reputação do blogueiro tem haver com sua capacidade de ser um perito. E, pela primeira vez na história da comunicação, a verdade é construída sem a necessidade de hierarquias no plano da subjetividade.

Hoje podemos dizer que a reputação é resultante de um conjunto muito diversificado de operações. Mas julgar é algo que requer tempo. As idéias requerem tempo, já dizia Platão. Fiz um compêndio do que autores que têm estudado a blogosfera tem a dizer sobre a conquista de uma reputação em blogs:

– Escreva só para você. Você é o seu único público.

– Concentrar-se num assunto específico. A identidade é a base da reputação.

– Indagar-se sempre sobre por que está direcionando um link e ou por que escreve sobre um assunto. No mundo da blogosfera, a reputação nasce dos links que você sugere. A confiança é fator decisivo na formação da reputação.

– Quem passa de perito para “personalidade da web” perde reputação porque se orienta por questões não mais centrais ao foco do seu blog.

– Analise a imagem mental do seu público para que não publique nada inadequado. A reputação cresce quando o conteúdo do blog coaduna-se com o gosto do público. Se escreves sobre gastronomia, talvez o público não seja muito fã de suas impressões sobre o filme que você assistiu com seu filho.

– Não recomende de imediato uma notícia que tenha gostado. Pesquise, compare versões e direcione ligações para aquelas mais aprofundadas.

– É preciso ter uma presença online pró-ativa e colaborativa para além dos blogs. Mas não pratique a adulação e não seja submisso. O importante é a ponderação, a sinceridade e a posição discordante respeitosa.

– Ignore os conflitos.

– Não queira ser um “vendedor de audiências” como faz a televisão. A longo prazo, você é visto como um mercenário. E sua voz terá pouca força de reputação de conteúdos na comunidade blogueira, apesar de ter popularidade.

– Publique aquilo que é verdadeiro. A verdade é o limite da liberdade da expressão.

– Qualquer erro deve ser corrigido publicamente.

– Nunca destrua um post. Se não tem certeza de sua opinião, não a publique.

– Revele os conflitos de interesse em torno de uma idéia ou fato.

– Faça ligação para links de conteúdos que você discorda.

III. Notas conclusivas: sobre críticas à moral blogueira

Eu queria terminar apontando alguns dilemas éticos que nos atravessam e que afetam a construção da reputação blogueira em comunidade. E comentar um pouquinho cada um desses dilemas:
1.    Os links incestuosos ou a endogenia mafiosa de alguns blogueiros. No jornalismo uma das coisas mais danosas é que o jornalista só lê jornal. Isso faz com que as notícias sejam sempre as mesmas. Dizemos, isso é uma tautologia. No caso dos blogs, o nosso problema é ficar restrito a poucas fontes, geralmente aquelas que alcançaram um papel de hub no nosso campo. Quando ficamos restrito a um mundo restrito, impedimos que  perspectivas distintas. Então seria muito bom que todo blogueiro convocasse e linkasse blogs com pequena audiência, isso como um hábito mensal ou semanal. Isso não é só um questão que produz empatia, mas que valoriza o novo, valoriza a comunidade. Sabemos, com a nossa experiência de mídia de massa, que repetição gera saturação na imagem.
2.    Pouco esclarecimento de notícias, e mais pontos de vista sobre elas. A função da blogosfera é fazer uma insurreição na velha hierarquia saber especializado x saber profano, como já havia colocado. A grande força da blogosfera é constituir uma excesso de ponto de vista para retirar o sentido único que geralmente contém uma notícia ou até um post. Muitas vezes há uma reprodução da agenda midiática, uma importação cega, para o blog ficar dentro da agenda da imprensa. E assim ganhar mais atenção. Não adianta o cara dizer que a saúde do Steve jobs anda ruim. Significa sempre que ele está à reboque de um outro mídia. A questão é então o que significa isso para o mercado de tecnologia, para a história da informação, para o futuro da Apple etc.

3.    A repetição, a previsibilidade e o ar de completo. É importante o raciocínio que nosso conteúdo é aberto, portanto, sempre há uma lacuna que queremos deixar de tê-la. Quando repetimos o que já dizemos, somos previsíveis, produzimos redundância negativa, uma entropia. É como ouvir um palestrante repetindo o mesmo argumento. A repetição deve ser um recurso para ativar uma memória. Somente, penso.

4.    As reações convencionais no lugar da interpretação genuína. Não se torne um jogador de futebol. Sabe aquela coisa de repórter no campo, jogar saindo do vestiário e aquele depoimento: “Respeito o adversário, será um jogo duro, mas estamos preparado para ganhar”. Então esse vazio argumentativo é depreciativo. Uma coisa é ser ponderado, outra coisa é ser submisso.  É preciso que sua voz ecoe na blogosfera, através de argumentos que fazem parte de seu ponto de vista.
5.    Pautar-se exclusivamente pelos assuntos do momento (caçadores de paraquedistas). Não se estresse: sempre haverá alguém com público maior que o seu. “Não confunda a atenção que presta ao público com o objetivo de impressioná-lo”.

Obama e o mundo pós-espetáculo 20 janeiro, 2009

Posted by Fabio Malini in Sobre o virtual.
3 comments

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Enviei esse comentário para ser publicado no Jornal A Gazeta, daqui do ES:

Se John Kennedy inaugurou a fase da política televisiva (tornando até hoje o mais célebre presidente norte-americano, e Jackie a mais midiática primeira-dama), Obama é o arquétipo da política das redes em que vivemos atualmente.

Se os teóricos da identidade vêem-no como uma figura capaz de romper a prisão da identidade racial, sem sombra de dúvida, nós, pesquisadores da comunicação, já o percebemos como um legítimo índice da comunicação política pós-espetacular. Essa onda Obama não pode ser mais explicada pela acusação simplista que estaríamos vivenciando um retomada da “imagem sem corpo”: em que a política é constrangida pela teatralização, pelo vazio da imagem pública ou pela transformação da história em marcas e grifes. Obama não é um hamburguer, um sapato, como geralmente tratam os marketeiros políticos da TV/Rádio. Obama construiu uma reputação em rede, em que até as logomarcas com seu rosto são originadas pela produção de uma inteligência coletiva (designer, webmasters e publicitários comuns, amadores como gostam de dizer). Uma inteligência coletiva que transcende as fronteiras dos EUA.

Os anúncios e convocatórias de Obama à nação se faz pelo Youtube, e até sua transição de governo tem participação de seus colaboradores online, através do seu site Change.com. Obama era um “qualquer um” há dez anos, e foi alçado a presidente pelo seu talento político dentro do Partido Democrata, mas, sobretudo, pelos milhões de colaboradores que fizeram inverter a lógica de financiamento de campanha, ao dotar, com pequenas doações feitas por milhões de pessoas, o Fundo de Campanha de Obama de quase 1 bilhão de dólares.

A popularidade do político não se faz mais pela televisão, como inaugurou a era Kennedy. Agora se faz através do “poder do link” da internet. É o paradigma da referência que estamos a atravessar. Eu vi o seu vídeo, gostei, e referenciei no meu blog, que foi lido pela minha pequena audiência, que gostou e referenciou nos seus respectivos blogs e espalhou em suas listas de discussão. Enfim, a comunicação política da mídia tradicional é – e será – cada vez mais o lugar do comportado, daquele que produz clichês baratos, que idolatra o papai-mamãe. Não há debate. Este se deslocou para a grande rede.

Por que a onda Obama é enorme? Porque ela é tipicamente um fenômeno de rede, é um “enxameamento” (swarming), é uma atividade que vem de todos os lados sem ter, portanto, “centro de emissão”. Eu sou Obama, portanto, Obama é muitos. Como um “qualquer um”, Obama está como aquele estudante chinês, o qualquer um, defronte ao tanque de guerra – sua crise – na Paz Celestial. É o qualquer um que clama por mais democracia.  Agora resta saber se o presidente vai ser ainda melhor que o candidato.