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O digital, a televisão e o futuro 6 fevereiro, 2009

Posted by Fabio Malini in Sobre o virtual.
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A transmissão digital da televisão acabará, enfim, com chuviscos e borreamentos. Isso é a pura verdade, mas nem de longe se trata do seu principal impacto. Neste verão, o que começa a ser inaugurado – ainda devagar – no Espírito Santo é uma ruptura com o modelo de televisão que vigora há mais de 50 anos. A lógica desse modelo é simples: toda emissora deve conquistar uma boa audiência (massa) para depois vendê-la a potenciais anunciantes. É essa venda de massas que garante a sustentabilidade financeira de qualquer veículo. Para além do bem e do mal, foi esse modelo que fez alavancar a indústria de broadcasting do país, tornando essa terra uma das mais prósperas e criativas no que tange a produção de linguagem televisiva, ao mesmo tempo que criou uma indústria concentrada nas mãos de poucos.

Mas, por que a transmissão digital se antagoniza com esse modelo? Por três motivos básicos que estão em seu interior: a conectividade, a interatividade e a convergência. Se vencida a batalha pelo desenvolvimento do middleware Ginga, o que significa negociar o pagamento mínimo de royalties pelo uso de uma série de tecnologias nele inscritas, a tv digital se tornará um dos principais instrumentos de interatividade e inclusão digital do Brasil, pois se transformará em um ponto de acesso à internet, possibilitando ultrapassar o unilateralismo que sempre demarcou as emissões das ondas eletrônicas. Tal conectividade empurraria a televisão para dentro do princípio mais interessante do digital: a modularidade. Os dados são contínuos, portanto, submetidos sempre a uma adaptação individual ao invés da estandartização massificada. Cada um seleciona entre uma diversidade de dados a ideologia que quer carregar. Isso conduz a emergência de novas possibilidades econômicas, como a personalização de conteúdo. As emissoras poderão vender pacotes mais customizados a partir de sua grade de conteúdos. Vender programas e não canais. Contudo, para isso, o Congresso Nacional terá de aprovar um novo marco regulatório para o mercado de comunicação, pois hoje emissoras só podem fazer transmissão direta (um-todos), e não um-um, como é a lógica da telefonia.

Ao mesmo tempo, do ponto de vista do cidadão, a televisão digital será marcada por elementos interativos em sua tela. De novo aqui se abre novos mecanismos de e-commerce para todos, mas a lei atual também impede que emissoras de canais abertos, públicas ou privadas, possam ofertar broadcasting e internet. Outro ponto de conflito: hoje há tecnologia que permite gravação, edição e distribuição de programas através da televisão digital. O entrave é a lei, que não permite o chamado canal de retorno e quer impedir a  gravação de cópias, algo que daria a todos a possibilidade de se comunicar com todos e criar sua própria biblioteca de programas. Sem isso a televisão funcionaria somente como uma máquina de descarregamento de arquivos que não ficam armazenados nos equipamentos das pessoas.

Há ainda o desejo de convergência entre a sociedade. Não adianta a televisão ser restrita a si, ela deve funcionar em interface com diferentes dispositivos, desde o celular ao pendrive. Há outros pontos de debate, como o caso da multiprogramação e da transmissão em alta definição (HD), mas dá para se ter uma idéia que o atual modelo de televisão é um defunto que muitos ainda ficam a fazer eletrocardiograma. Um defunto que ainda vai durar algum tempo, apesar de não ter mais salvação. De certo é que ele não mais mobilizará a atenção de produtores, artistas, executivos e pesquisadores. E vencido os altos custos de aquisição da tecnologia digital, o que estará em jogo será a capacidade de se produzir conteúdos de qualidade voltados para demandas específicas e ativas, que estarão com suas mentes cada vez imersas na tela.

Não haverá mais como vender massas. O que se venderá é conexão. Possivelmente vamos ver a saída de cena das emissoras, pois se transformarão em “provedoras de acesso” em um mercado com muita mais concorrência (com as telefônicas, as chamadas redes públicas e, sobretudo, com os milhões de usuários que hoje são cada vez mais produtores de mídia). Mas isso são cenas do próximo capítulo que todos vamos participar.

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