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O “ih, fora!” e a volta do Zé Carioca 19 janeiro, 2010

Posted by Fabio Malini in crítica.
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Decepcionar é um prazer.” (Gilles Deleuze)

No excepcional discurso de Gilberto Gil, em 2003, então empossado como ministro da cultura, o artista baiano afirmava: “Não cabe ao Estado fazer cultura”. O cantor-ministro espantou geral, muitos dele riram. Como se sabe, Gil fez uma gestão revolucionária, de escala global. A lógica do ministro era a de fazer algo bem contemporâneo, que chamou de  do-in antropológico. “Avivar o velho, massagear o novo”.  A herança de Gil parece que passa ao largo da administração cultural da capital, ainda presa a visão folclorista da cultura. Mas um folclorsmo de tipo novo. A folclorização da cultura pop. A receita é assim: transforma-se algo em pop, depois o pop em um cult folclorizado.  É uma operação que dá no mesmo de sempre: samba, suor e cerveja, a mesma equação que tanto tempo, pré-Gil, fazia a alegria dos salões burgueses nos tristes trópicos. E que transformaria os gabinetes de cultura numa caixa de repasse de verbas para uma clientela preferencial.

O problema é que a cultura do hit “já era”, como dizem os funkeiros. A cultura do hit pertence às festinhas anos 80, 70, 60… (já repararam que festa anos 90 ninguém faz?). O que “já é” é a tranformação da política cultural numa argamassa de uma sociedade permeada por milhares de pontos e nichos de cultura que estão articulados em rede. O problema que essa rede tem sido montada, em alguns lugares, sem estado e sem mercado, como é o caso de Vitória. E essa rede é o “novo” que precisa ser massageado.  Nesse sentido, como é possível ainda se gastar tanto dinheiro público em pop stars fakes? Para que massagear essa wanessada toda, esse limbo cultural que vegeta em criatividade e só faz girar a cultura do pequeno fanático (fã, que significa pequeno fanático)? O contra argumento poderia ser: de novos os intelectuais contra o gosto massivo. Falso engano. A cultura popular é marcada pela resistência. E a lógica industrial de massa, sabemos, é feita a partir da lei do mais forte. O samba – por exemplo – sempre foi popular, até quando começou a ceder e fazer enredos homenageando empresas, marcas, cidade, políticos etc.

Estamos a ver um novo modelo de gestão cultural em Vitória. Há uma pretensão utópica: Vitória ser o lugar de grandes espetáculos. Nada tão provinciano no momento em que o mundo já está bem aqui, ao nosso lado, e a questão é como jogar o mundo aqui, e aqui no mundo. Ao contrário, insiste-se no velho modelo getulista: por que não transformar “Sol’s” em pequenas Wanessinhas ?  Por que não criarmos zécariocas? O radical talvez seria ver é um mashup de wanessas, zé’s e sol’s . Isso que seria notável.  Mas, para isso acontecer, é preciso cultivo (de onde vem a palavra cultura), tempo para a criação, para a produção cultural e um novo olhar sobre o que é a cultura hoje.  Não adianta juntar, é preciso recombinar, remixar, samplear.

Senão o pop vai virar folclore. E o sertão vai virar mar.

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Escrevi esse artigo há uns cinco dias. Como muitos sabem, acredito muito na gestão (da cultura) da capital. Há tempo para intervi-la com a palavra, quer coisa melhor?  Tive dúvidas e, confesso, até receio em publicar. Mas, hoje, depois de domingo, quando o público da Wanessa gritava “Ih fora, Ih fora, Ih fora” para o experimental da banda Sol na Garganta, decidi publicar o artigo aqui mesmo no blog (iria para outro lugar, mas forças ocultas…).

Em certo momento, a plateia gritava para a banda: “chão, chão, chão”, numa espécie de interação sádica, do tipo “de onde vocês saíram? que coisa de banda são vocês, eu quero a Wanessaaaaaa!!!! Era a demonstração cabal da situação da cultura na cidade.  É isso o resultado de uma política cultural baseada no fomento do pequeno fanático. É aquilo que o Gil dizia, o “Estado não deve produzir cultura”. Inventou de produzir cultura, deu nisso: “tudo na chão, chão, chão”.

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Jornal feito à mão 2 novembro, 2008

Posted by Fabio Malini in coletivos, jornalismo.
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Enquanto o mundo diz “all web”, tem gente que experimenta voltar e começar de novo fazendo um jornal na munheca, é o The Manual.

jornalismo e o emburrecimento digital 14 outubro, 2008

Posted by Fabio Malini in Sobre o virtual.
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Em El aburrimiento del periodismo de internet, publicado no Pagina12, Omar Rincon defende que o jornalismo da internet se converteu no único jornalismo que pode se fazer porque a rádio, a televisão e a imprensa imitam a internet. Mas a tese do cara é que a internet nos emburrece.

do papel para a Web 19 setembro, 2008

Posted by Fabio Malini in Sobre o virtual.
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Mais um artigo – escrito por Frédérique Roussel, em francês –  sobre o debate da migração do jornal de papel para a internet: Du papier au Web, chronique d’une révolution de l’info.